quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Espaço Mínimo

Não adianta todo o universo às ordens, pois neste momento minha visão é de um espaço mínimo... Sinto dor, muita dor...

Passeio meus olhos pelo ambiente e nada me contenta nem me responde, recolho-me em mim mesmo e busco calma, consciência, saída.

Atenção máxima aos meus sintomas, detalhes informam o que se passa no meu interior e me impedem de entrar em pânico, ainda tenho reservas e posso esperar...

Aliás, o desespero não ajuda...

A vida se transfere para cada detalhe do meu corpo, cada poro que se estica na pele sem esperança de que este drama vá terminar, mas a consciência me põe em alerta e percebo minúcias, apreensivo, expectante, atento...

... Apenas quero cuidado na inserção das agulhas que conduzem medicamentos para dentro de mim..., pois dóem, agridem, invadem...

Olho aflito para os olhos dos enfermeiros que me cercam e aguardo a agulhada. Toda a percepção dirige-se para a ponta da agulha que ameaça a pele, busca caminhos entre as carnes para perfurar veias e artérias, ali se fixar e transferir drogas, antibióticos, soro...

Mas os olhos dos enfermeiros não fixam os meus e nem me notam, eles nem ouvem meus reclamos, as súplicas, de que coloquem o equipo num local que me permita mais mobilidade e menos sofrimento... Apenas um pouco mais de conforto já que tais perfurações irão permanecer dias no mesmo local, dolorido, infiltrado, inchado, ferido... Minha pele chora e eles não vêem...

Eu choro e também não mais percebo minhas lágrimas... Céus... Semanas e semanas na mesma torturante rotina de dores... A mesmice das dores...



Um comentário:

Cantinhos e agulhadas disse...

A cirurgia foi um sucesso!
Conseguiu-se extirpar toda a região afetada, metade do intestino grosso (a previsão inicial era de que seria completamente retirado), os pontos de infiltração no estômago, todos os gânglios extras-gástrico (bombas de sucção de líquidos do trato intestinal), realizando assim uma limpeza geral do câncer.
Com a preservação de parte do intestino terei um melhor funcionamento intestinal e mais fácil readaptação do organismo.
Dentro de alguns dias ficará pronto o resultado da análise do material coletado (biópsia da parte cancerígena), quando saberei qual o tratamento de manutenção necessário. Teremos problema a resolver, pois os médicos acreditam que não suportei, pela presença da imunossupressão do transplante, à tradicional quimioterapia.
Mas tenho esperança de que tudo encontrará seu rumo adequado, uma vez que em todos os processos por que passei, e este último deixou a equipe médica de boca aberta, minha recuperação tem sido fantástica. A resposta de meu organismo é 1000.
Ainda lido com muitas dores e desconfortos, pois foi uma cirurgia muito invasiva e cheia de cortes e pontos internos e externos, mas me sinto bem melhor.

Algo mudou dentro de mim e começo a perceber de forma sutil.
Desde o transplante que enfrento uma imensa depressão, falta de ânimo, muito cansaço físico (e meio que espiritual), uma anemia constante que resistiu a todos os remédios e regimes.
Os médicos atribuíam à medicação imunossupressora, que não só alterava os marcadores sanguíneos como também provocava a depressão, além da constatação de que as cirurgias coronarianas provocam comumente tal estado de espírito.

Mas isto nunca me satisfez! Era uma explicação que não encontrava eco interno. Faltava número nesta conta, pois me sentia mal demais para tão pouca causa!
Em nenhum momento me ocorreu a presença de um câncer (até porque não havia nenhum sinal visível), mas sempre esperei surgir um fato mais esclarecedor.

Com certeza, quando iniciou minha doença em Out/2000, procurei compreender o que acontecia e a aceitar as novas exigências da vida, adaptando-me o melhor possível ao novo quadro, que mudava minha vida em diversos aspectos e para pior.

Ao transplante, nunca aceitei! Ou melhor, as conseqüências desastrosas para minha qualidade de vida nunca aceitei!
Nunca entendi a depressão como um estado "normal para a quadro pós transplantado" e menos ainda se senti "grato a Deus" por estar vivo, simplesmente.
Meu divino me reserva sempre a preservação do entendimento, da razão, do carinho. Ele brinda minhas emoções com o exercício da inteligência e da compreensão. Em nenhum momento de minha vida me exigiu provas cegas, compensatórias ou dogmáticas.

Pois bem.
Há uns 24 anos fiz pela primeira vez o exame prostático, com o toque retal.
Eu introduzia na empresa programas de qualidade de vida.
Tal exigência se fazia para homens com mais de 40 anos, mas submeti-me ao mesmo com os então 34, coisas da intuição.
Meu divino até nisso me intui, pois o resultado foi o descobrimento de dois pólipos cancerosos, um deles maligno!
Foi feita a retirada dos mesmos e passei a realizar um exame chamado colonoscopia a cada intervalo de 2 anos.
OBS.: na empresa a notícia repercutiu de maneira maravilhosa tornando a aceitação do exame prostático mais fácil. Muito bom isso!

Pouco antes de realizar o transplante, há uns 6 anos, fiz a última colonoscopia. E como todas as anteriores, após a 1ª que acusou os tais pólipos, nada foi encontrado.
Após um ano da cirurgia lembrei aos meus médicos a necessidade de tal exame, pois que já faziam 2 anos do último.
Fizeram uma banca de médicos (round de estudo de caso), que participei (minha equipe é nota 10. Sempre participo de tais rounds), e concluíram que era demais invasivo, sujeitando-me a infecções e outras complicações. Absolutamente não recomendável pelo então recente transplante ainda numa fase de ajustes medicamentosos e outros. Foi uma tarde memorável e meu voto fechou com o deles.

Na verdade, o câncer, supõe-se, começou naquela ocasião.
E passou a drenar minha saúde para o buraco negro da doença.

Hoje já sabem que tive perda permanente de sangue.
A anemia que me acompanhou todos estes anos, por incrível que pareça, desapareceu após a atual cirurgia!
O combinado é que me internaria 2 dias antes da mesma para repor sangue, uma transfusão.
Não pude esperar a data aprazada, pois a dores se anteciparam e dei entrada na emergência antes do dia esperado. Com isso, e para evitar o uso de morfina, fui operado às pressas e sem a transfusão sanguínea. Tomei 2 bolsas durante o evento, mas isto faz parte de qualquer cirurgia.
A partir daí fiquei sob alimentação parenteral, que supre cerca de 60% das necessidades, mas os exames de sangue não acusaram mais a anemia!!!

O câncer era a resposta que eu aguardava tanto.

Minha intuição me dizia que alguma coisa maior estava por trás de todo o meu desconforto, que não era o tradicional e esperado quadro pós cirúrgico, ou a baixa de plaquetas pelos imunossupressores...

Agora a conta fechou com os números corretos.
Mais uma vez meu divino coloca os pingos nos ii de que tanto preciso e orienta minha vida... Sempre... E na hora mais adequada...

Vim para casa num fim de semana de deste mês de Maio de 2008.
Hoje, duas semanas depois, tirarei o dreno para líquidos extras-gástrico e os pontos.
A alimentação deve-se normalizar em poucos dias, mas já me alimento bem. Tomo meus sorvetes e meu café da manhã com pão quentinho, manteiga e café. Ontem comi pães de queijo e goiabada com queijo da Serra da Canastra. Céus, como o prazer é feito de coisinhas bestas!!!

E agora dou as notícias a você, (quer prazer maior?!)
Beijos pós-cirúrgicos e um abraço gostoso e apertado, carinhoso e de entrega secular... Um abraço em que o tempo sorri, o calor humano se transmite e recebe... E deixa aquele arrepiozinho de ternura e acolhimento...