Venho lutando pela vida contra doenças desde 2000.
Inicialmente um enfarte, provocado pela arritmia cardíaca que se manifestou intempestivamente, como sempre faz, para pegar de surpresa e matar, na maioria das vezes... Resisti com a respiração diafragmática e consegui chegar no hospital a tempo.
Uma parada cardio-respiratória logo a seguir, (novamente não morro pelo mesmo recurso respiratório, santo remédio prolongador de vida, pois quem respira não morre), mas deixou seqüelas imensas, com o coração dilatado e o prognóstico para o transplante cardíaco... E uma péssima qualidade de vida...
Sobrevivi uns 3 anos com aparelhos embutidos no peito (um desfibrilador e logo um outro cardio versor) que faziam o coração bater permitindo a vida, mesmo que combalida e tímida, ameaçada...
Finalmente em 2003, graças a uma família consciente da vida e da morte, que permitiu doação dos órgãos do filho adolescente que acabara de sucumbir num acidente de moto, fui o escolhido para receber o órgão do coração...
Longos anos de sobrevivência difícil, pequena, incompreensível pela baixa sensação de vida, inúmeros medicamentos, filas e ações judiciais (para que o governo entregue as medicações que a lei os obriga a entregar, mas as verbas são desviadas para a roubalheira que sabemos grassar nosso país, desgraçando-o...), terríveis e complexos efeitos colaterais de drogas imunossupressores que demandam novas drogas para anular os efeitos delas mesmas... Uma farmácia ambulante... Céus...
Algo não andava bem comigo, com meu corpo e com minha alma... A energia drenada e sem diagnósticos que ajudassem a curar ou diminuir todo o sofrimento, a depressão, as dores, o permanente desconforto de estar vivendo... Uma existência em preto e branco, mais para cinza...
... E não me contento com as falas do “graças a deus que está vivo... ou “olhe o outro ao seu lado que sofre mais...” e assemelhadas, pois tenho a absoluta crença num divino bom e justo, que não nos obriga ao sofrimento como se antecipadamente culpados, e que nos dotou com o bem maior, a inteligência, justamente para desenvolvermos isto que pertence ao ser humano... Usar sua paixão e criatividade para o desenvolvimento e o progresso.
Algo estava errado, muito errado, mas não conseguíamos descobrir. A equipe médica foi incansável. Exames e mais exames e nada... Eu apresentava, aparentemente, o quadro esperado para um transplantado do coração...
Aí, em Dezembro de 2007, contraí uma pneumonia. Nada anormal, pois faz parte do arsenal de possibilidades para o quadro do transplante, com tão baixa imunidade. Saí, mal, para os festejos de fim de ano, e regressei com outra pneumonia em Janeiro de 2008... Dois meses de internação e mais exames e prognósticos, pois não me sentia melhor e descobre-se uma Tuberculose... Meu divino!!! Que coisa!!! Briguei com ele, muito!!! Tuberculose?!
Em Abril começo a sofrer fortes cólicas, dores que nunca havia sentido antes...
Novos exames e surge a notícia: câncer no intestino grosso, dos maus, já adiantado e que requeria cirurgia urgente, o que foi feito em 07 de Maio.
É uma cirurgia dolorosa, talvez as maiores dores que já me doeram na vida... E dispensei a morfina rapidamente, não gostei de seus efeitos colaterais... Preferi a dor... Santa dor que nos faz refletir...
Mais uns dias internado e recebi alta do hospital.
De volta ao querido lar, onde tenho meu arsenal de vida e sobrevivência, meu consultório, meus livros, os violões, as músicas, a TV e o computador que me liga ao mundo inteiro... E onde a família e os amigos podem estar sempre comigo com conforto e liberdade... Meu mundo!
Mas algo novo e bom está acontecendo comigo.
Uma espécie de alívio geral, despressurização das nuvens negras que me rondavam desde o transplante... As cores da vida, do mundo e das gentes retornam aos seus lugares de sempre, a depressão cede e a vida abre-se para a novas paixões, novos caminhos, novas visões... Retomei meu antigo hábito de ler desmesuradamente, centenas de páginas diariamente, além do jornal e das revistas, do PC e da TV...
Pois bem, aquele câncer já estava dentro de mim há cerca de 5 anos... Os médicos suspeitam que tive perda sanguínea este tempo todo, mascarada pela constante diarréia atribuída ao excesso de medicamentos e seus efeitos colaterais, à perda do nervo vago, destruído na cirurgia...
Não sei se é isto mesmo, não busco outras respostas, pois o câncer trouxe as respostas que minha alma ansiava. Explicou todo aquele drama, a falta de energia, a perda do sabor de viver e de sentir a vida, a falta da alegria e o desconforto permanentes.
Com a cirurgia extirpei o que me consumia e esgotava... Hoje enfrento a quimioterapia com coragem e certeza de que a vida vale a pena sempre... Sei que novas encrencas podem surgir, mas não temo!
Esta experiência dolorosa tem uma explicação médica, coerente, sem pieguices nem compensações.
Não gosto e nem aceito as explicações da vida por metáforas, submissões e o etéreo...
O que me acontece faz parte da minha história pessoal, importante para que a vida faça sentido. É a lei da ação e reação, da genética, do real. E o divino, penso-o assim também.
Uma vez li que um cientista ao ser perguntado sobre o que era Deus, respondeu que é aquilo que a ciência ainda não explica, e que sempre haverá o inexplicável, mas que cabe aos homens perscrutarem eternamente em busca de explicações, pois este é o espírito divino. Gosto disso e adotei!
O não aceitar o tal “graças a deus...” e o “olhe o sofredor maior e agradeça por...”, por julgar que o divino está sempre a nosso favor.
Agora posso passar adiante minha história e convidar àqueles que estão em pior situação a se rebelarem contra ela, a buscar respostas, a ultrapassar limites, a não se contentar com o inexorável ditame de crenças compensatórias e minimizantes de nossa eterna capacidade de renovação...
E a paixão tem um lugar todo especial nisto tudo, pois é a grande ferramenta do crescimento humano. É quando olhamos para dentro de nós mesmos e nos fascinamos com nossa beleza interior, com o poderio de nossa criatividade, com nossa real possibilidade de sermos humanos... Somos possíveis, mesmo que doentes, cambaleantes, envelhecidos, feios e desprotegidos... Somos o divino que está em tudo e em todos e não precisa de intermediários nem de cultos e frases, nem de rituais e templos... Somos mais um dos infinitos templos do divino, mas devemos crer em nós mesmos para conseguirmos crer no divino...
Abençoadas sejam as doenças e os males e assim também seja nosso poder de nos sabermos, investigarmos nossos limites e irmos em frente, caindo e saindo andando para não sermos pisados, acreditando eternamente que o amor começa quando nos amamos...
