sábado, 9 de agosto de 2008

Meu câncer...

Venho lutando pela vida contra doenças desde 2000.

Inicialmente um enfarte, provocado pela arritmia cardíaca que se manifestou intempestivamente, como sempre faz, para pegar de surpresa e matar, na maioria das vezes... Resisti com a respiração diafragmática e consegui chegar no hospital a tempo.

Uma parada cardio-respiratória logo a seguir, (novamente não morro pelo mesmo recurso respiratório, santo remédio prolongador de vida, pois quem respira não morre), mas deixou seqüelas imensas, com o coração dilatado e o prognóstico para o transplante cardíaco... E uma péssima qualidade de vida...

Sobrevivi uns 3 anos com aparelhos embutidos no peito (um desfibrilador e logo um outro cardio versor) que faziam o coração bater permitindo a vida, mesmo que combalida e tímida, ameaçada...

Finalmente em 2003, graças a uma família consciente da vida e da morte, que permitiu doação dos órgãos do filho adolescente que acabara de sucumbir num acidente de moto, fui o escolhido para receber o órgão do coração...

Longos anos de sobrevivência difícil, pequena, incompreensível pela baixa sensação de vida, inúmeros medicamentos, filas e ações judiciais (para que o governo entregue as medicações que a lei os obriga a entregar, mas as verbas são desviadas para a roubalheira que sabemos grassar nosso país, desgraçando-o...), terríveis e complexos efeitos colaterais de drogas imunossupressores que demandam novas drogas para anular os efeitos delas mesmas... Uma farmácia ambulante... Céus...

Algo não andava bem comigo, com meu corpo e com minha alma... A energia drenada e sem diagnósticos que ajudassem a curar ou diminuir todo o sofrimento, a depressão, as dores, o permanente desconforto de estar vivendo... Uma existência em preto e branco, mais para cinza...

... E não me contento com as falas do “graças a deus que está vivo... ou “olhe o outro ao seu lado que sofre mais...” e assemelhadas, pois tenho a absoluta crença num divino bom e justo, que não nos obriga ao sofrimento como se antecipadamente culpados, e que nos dotou com o bem maior, a inteligência, justamente para desenvolvermos isto que pertence ao ser humano... Usar sua paixão e criatividade para o desenvolvimento e o progresso.

Algo estava errado, muito errado, mas não conseguíamos descobrir. A equipe médica foi incansável. Exames e mais exames e nada... Eu apresentava, aparentemente, o quadro esperado para um transplantado do coração...

Aí, em Dezembro de 2007, contraí uma pneumonia. Nada anormal, pois faz parte do arsenal de possibilidades para o quadro do transplante, com tão baixa imunidade. Saí, mal, para os festejos de fim de ano, e regressei com outra pneumonia em Janeiro de 2008... Dois meses de internação e mais exames e prognósticos, pois não me sentia melhor e descobre-se uma Tuberculose... Meu divino!!! Que coisa!!! Briguei com ele, muito!!! Tuberculose?!

Em Abril começo a sofrer fortes cólicas, dores que nunca havia sentido antes...

Novos exames e surge a notícia: câncer no intestino grosso, dos maus, já adiantado e que requeria cirurgia urgente, o que foi feito em 07 de Maio.

É uma cirurgia dolorosa, talvez as maiores dores que já me doeram na vida... E dispensei a morfina rapidamente, não gostei de seus efeitos colaterais... Preferi a dor... Santa dor que nos faz refletir...

Mais uns dias internado e recebi alta do hospital.

De volta ao querido lar, onde tenho meu arsenal de vida e sobrevivência, meu consultório, meus livros, os violões, as músicas, a TV e o computador que me liga ao mundo inteiro... E onde a família e os amigos podem estar sempre comigo com conforto e liberdade... Meu mundo!

Mas algo novo e bom está acontecendo comigo.

Uma espécie de alívio geral, despressurização das nuvens negras que me rondavam desde o transplante... As cores da vida, do mundo e das gentes retornam aos seus lugares de sempre, a depressão cede e a vida abre-se para a novas paixões, novos caminhos, novas visões... Retomei meu antigo hábito de ler desmesuradamente, centenas de páginas diariamente, além do jornal e das revistas, do PC e da TV...

Pois bem, aquele câncer já estava dentro de mim há cerca de 5 anos... Os médicos suspeitam que tive perda sanguínea este tempo todo, mascarada pela constante diarréia atribuída ao excesso de medicamentos e seus efeitos colaterais, à perda do nervo vago, destruído na cirurgia...

Não sei se é isto mesmo, não busco outras respostas, pois o câncer trouxe as respostas que minha alma ansiava. Explicou todo aquele drama, a falta de energia, a perda do sabor de viver e de sentir a vida, a falta da alegria e o desconforto permanentes.

Com a cirurgia extirpei o que me consumia e esgotava... Hoje enfrento a quimioterapia com coragem e certeza de que a vida vale a pena sempre... Sei que novas encrencas podem surgir, mas não temo!

Esta experiência dolorosa tem uma explicação médica, coerente, sem pieguices nem compensações.

Não gosto e nem aceito as explicações da vida por metáforas, submissões e o etéreo...

O que me acontece faz parte da minha história pessoal, importante para que a vida faça sentido. É a lei da ação e reação, da genética, do real. E o divino, penso-o assim também.

Uma vez li que um cientista ao ser perguntado sobre o que era Deus, respondeu que é aquilo que a ciência ainda não explica, e que sempre haverá o inexplicável, mas que cabe aos homens perscrutarem eternamente em busca de explicações, pois este é o espírito divino. Gosto disso e adotei!

O não aceitar o tal “graças a deus...” e o “olhe o sofredor maior e agradeça por...”, por julgar que o divino está sempre a nosso favor.

Agora posso passar adiante minha história e convidar àqueles que estão em pior situação a se rebelarem contra ela, a buscar respostas, a ultrapassar limites, a não se contentar com o inexorável ditame de crenças compensatórias e minimizantes de nossa eterna capacidade de renovação...

E a paixão tem um lugar todo especial nisto tudo, pois é a grande ferramenta do crescimento humano. É quando olhamos para dentro de nós mesmos e nos fascinamos com nossa beleza interior, com o poderio de nossa criatividade, com nossa real possibilidade de sermos humanos... Somos possíveis, mesmo que doentes, cambaleantes, envelhecidos, feios e desprotegidos... Somos o divino que está em tudo e em todos e não precisa de intermediários nem de cultos e frases, nem de rituais e templos... Somos mais um dos infinitos templos do divino, mas devemos crer em nós mesmos para conseguirmos crer no divino...

Abençoadas sejam as doenças e os males e assim também seja nosso poder de nos sabermos, investigarmos nossos limites e irmos em frente, caindo e saindo andando para não sermos pisados, acreditando eternamente que o amor começa quando nos amamos...