Passeio meus olhos pelo ambiente e nada me contenta nem me responde, recolho-me em mim mesmo e busco calma, consciência, saída.
Atenção máxima aos meus sintomas, detalhes informam o que se passa no meu interior e me impedem de entrar em pânico, ainda tenho reservas e posso esperar...
Aliás, o desespero não ajuda...
A vida se transfere para cada detalhe do meu corpo, cada poro que se estica na pele sem esperança de que este drama vá terminar, mas a consciência me põe em alerta e percebo minúcias, apreensivo, expectante, atento...
... Apenas quero cuidado na inserção das agulhas que conduzem medicamentos para dentro de mim..., pois dóem, agridem, invadem...
Olho aflito para os olhos dos enfermeiros que me cercam e aguardo a agulhada. Toda a percepção dirige-se para a ponta da agulha que ameaça a pele, busca caminhos entre as carnes para perfurar veias e artérias, ali se fixar e transferir drogas, antibióticos, soro...
Mas os olhos dos enfermeiros não fixam os meus e nem me notam, eles nem ouvem meus reclamos, as súplicas, de que coloquem o equipo num local que me permita mais mobilidade e menos sofrimento... Apenas um pouco mais de conforto já que tais perfurações irão permanecer dias no mesmo local, dolorido, infiltrado, inchado, ferido... Minha pele chora e eles não vêem...
Eu choro e também não mais percebo minhas lágrimas... Céus... Semanas e semanas na mesma torturante rotina de dores... A mesmice das dores...
